
Tinha prai uns 5 ano, sim, pequeno e fràgil sem conhecer nada do mundo, Zezito chegou a casa e viu aquele corpo ali deitado no chão...
Continuou a brincar sozinho na varanda até que o Pai chegou, com um ar triste, pegou-o ao colo e deu lhe um beijo de boa tarde... Hummm como era bom sentir aquele "cheiro a Pai", aquela barba a picar lhe a cara..
Estás aqui sozinho?? Perguntou.
-Sim, Não faças barulho, a Mãe está a dormir no chão do quarto..
Num salto o Pai quase deixou cair o miudo e correu até lá, a partir daí foi uma corrida contra o tempo...
E a partir daí foi essa a história da vida do Zezito, teve que aprender a viver com os gritos, teve que aprender a acordar a meio da noite e ficar agarrado ao seu ursinho de peluche a ouvir as discussões.
Aprendeu a crescer sozinho, de coração apertado, sempre com medo de voltar a casa.. Tinha medo de encontrar de novo aquele corpo caído num qualquer canto , mas teve de habituar-se á ideia porque foram tantas as vezes... Tantas....
Com o passar do tempo Zezito aprendeu a lêr, INFELIZMENTE aprendeu a lêr...
"Quando chegarem já devo estar morta, estou farta de viver assim "
"Não aguento mais esta vida, não sou feliz, Adeus.."
Foram estas algumas das primeiras coisas que Zezito aprendeu a lêr, eram os recados que encontrava ao lado do corpo da sua Mãe a cada tentativa de suicidio.
O tempo foi passando, mudaram de casa, nasceu outra criança, mas nada mudou, a não ser para pior, as tentativas continuaram , as discussões continuaram e o Zezito continuou tambem a viver aquilo tudo, sem entender nada, sem saber o que fazer...
Fragil, com medo , com vergonha de uma sociedade que o olhava com pena, continuou vida fora com aquelas imagens cravadas na memória.
Zezito é hoje um adulto, aparentemente o mais normal e comum dos mortais, mas basta fechar os olhos para que o passado o volte a atormentar...