quarta-feira, 15 de julho de 2009

Abandonado


Zézinho acordou quentinho, enrolado no seu cobertor de retalhos, a seu lado tinha a sua mochila e estava Nilo o seu cãozinho que já pulava de alegria por sabe-lo acordado. Mas estavam apenas os dois, olhou em volta ainda levemente adormecido mas estavam apenas os dois, no mesmo lugar onde na noite anterior ele havia adormecido com seus pais. Levantou se e foi procura-los.Saiu daquela cabana aparentemente abandonada no monte e deparou com a beleza do lugar, tudo era verde á sua volta, o Sol já forte lá no alto apenas salpicava aqui e ali o solo por entre as densas e centenárias árvores..
E agora?? Zézito estava sozinho e sentia fome. Abriu a sua enorme e pesada mochila , havia imensa comida, pão , bolachas, frutas, até iogurtes e chocolates, estava lá também uma foto sua com seus Pais, o seu casaco preferido, um gorro e um envelope, era um bilhete.
“ Querido filho , não tivemos outra alternativa senão deixar te entregue á tua sorte, sabemos que és forte e lutador e vais dar-te bem, mantém -te alegre , curioso e com garra e vais conseguir. Lembra te que no dia que deixares de sonhar , começas a morrer.. Desculpa-nos.
Um enorme beijo dos teus Pais.
Adeus..”
Zézinho sentiu-se sem chão, sentiu as lágrimas caírem-lhe pelo rosto, sentiu vontade de gritar, isto não podia estar a acontecer, ele não podia ter sido abandonado.
Não , não pode ser, anda Nilo corre....
Pai, Mãe, Pai onde estão???
Vá la por favor não façam isto , onde estão???
Zézinho correu tanto, gritou tanto , que quando conseguiu parar deixou-se cair e ficou ali no chão a chorar, o cãozinho não entendia nada e tentava lambe-lo e brincar com ele.
Pára , deixa me , não vês que fomos abandonados????
Foram abandonados?? perguntou uma voz suave, era uma senhora que passava carregada com lenha.
Bom dia desculpe diz ele levantando-se e tirando da mochila a foto.
A Sra não viu estas pessoas?? são os meus pais, eles estavam comigo aqui ontem, ali ali numa casa velha, não os viu??
Tem calma pequeno tem calma , não não os vi mas o que se passou?
Eles deixaram esta carta. Abandonaram-me mas eu não acredito, eu vou encontra-los. Coitado , pensou a senhora.
Esquece pequeno , se te deixaram aqui, não vais encontra-los nunca. Tens fome??
Não senhora obrigado vou procura-los e começou novamente a correr.
Olha eu vivo nessa casa branca já ai á frente , se precisares de comida aparece, gritou a senhora ao miúdo que já ia longe.
Correu, deu voltas e mais voltas e nada. Cansado de correr, cansado de chorar, com a noite a chegar novamente, de alma desiludida e o seu animo de criança a arrefecido teve de procurar um lugar onde repousar. E encontrou... Encontrou uma capela aparentemente fechada, mas um leve toque numa das portas fé-la abrir, era linda, fria mas linda, com uma bela imagem da Virgem aos pés da qual Zézito se ajoelhou e rezou, falou lhe ao coração e pediu muito para ter a sua família de volta , tanto que acabou por se deixar dormir a seus pés.
Acordou gelado e e com fome, o seu cobertor havia ficado para trás, mas felizmente a mochila não.
Comeu tanto e tão rápido como se o mundo estivesse a fugir dele, mas sem nunca esquecer de alimentar o cão que parecia carregar lhe a tristeza...
Os dias passaram e a busca do menino continuou, mostrou sempre a foto a quem encontrava no caminho, chegou a uma altura que a foto era a única coisa que tinha na mochila, aceitou comida de algumas pessoas, tomou banho no rio, dormiu ao relento, viu seus sonhos desmoronarem-se e apesar da sua mão cheia de nada e de sentir a maior de todas as dores, a do abandono, nunca desistiu e acreditou sempre que um dia iria ser feliz.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Substituição (dedicado a um Amigo do peito)



Aflige-me esse desespero em que te vejo, essa angústia constante que vejo brotar em ti. Sinto o medo, a revolta e o conflito a tomarem conta do teu ser e a abafarem a tua essência mágica que tanto me encanta.

Por vezes indago-me o porquê de te aprisionares?... Parece que te inundas por uma necessidade súbita de te perder, por uma fome incontrolável de tristeza, solidão e desnorte. Gostava de poder apagar essa fluência tenebrosa e escura que vejo surgir em ti, e que te cobre com mantos frios e gélidos, sugando-te toda a tua capacidade de fazer coisas belas, e exprimir esse teu sorriso e olhar tão puros e encantados.

Afoga-me a alma ver-te nesse pranto tenebroso em que te deixas envolver, como se uma criança indefesa se encontrasse frente a frente com o pior dos rufias do bairro. Como se te visses num instante fugaz onde tinhas que defender o castelo de diamante, mas de teres as mãos tão ásperas e calejadas, te recusas a lutar e baixas de forma desanimada e constrangida, os braços. Decides entregar assim o pergaminho da vitória ao inimigo, enquanto te recostas de cócoras, desanimadamente entregue à derrota.

Custa-me o fôlego mais profundo ver-te sofrer desse modo. Queria poder trocar de lugar contigo. Tomar o teu lugar nessa batalha, ser eu a enfrentar as feridas, ser eu a ver a minha pele rasgada a brotar jorros de sangue vermelho vivo intenso, enquanto as cicatrizes se vão acumulando e as forças se tornam escassas. Queria Poder Sofrer Por Ti, Arrancar-te essa melancolia em que te encontras e abrir-te a janela da esperança para que possas novamente abrir as asas sem medo de voar…
Queria dar-te a minha liberdade, colocar-te o meu sorriso e fazer-te brilhar… Mas não posso, não consigo, não depende de mim, está para além das minhas capacidades, e infelizmente, é esta a minha limitação…
No entanto, posso e estou aqui contigo… Em silêncio, em oração e em coração aberto. Para que saibas que, ontem, hoje, amanhã e sempre, a minha mão estará estendida para curar com água límpida e cristalina, as chagas impuras que te vejo renascer, e o meu sorriso trazer-te-á luz abundante e renovada para que possas voltar a trilhar o teu caminho…

publicado por Light Wings above in "caminho da verdade"